As razões para apostar no turismo de saúde

Ambição com os pés assentes no chão. Pode-se resumir assim a meta que Cabo Verde deve ter para a área do turismo de saúde, segundo a opinião do médico José Maria Martins. No fundo, falamos de um negócio que providencia terapêuticas, tratamentos, diagnósticos e cirurgias a preços mais baixos dos praticados nos países mais avançados, mas com os mesmos padrões de qualidade. Um mercado que, prevê-se, movimente 100 biliões de dólares nos próximos anos.

A saúde pode ser o motor de desenvolvimento económico de um país. Foi isso mesmo que o médico José Maria Martins explicou na Conferência Compromisso Sal. O termo turismo de saúde é novo, mas a ideia já tem milhares de anos. “Já os romanos e os gregos faziam viagens para ir às termas. Fez-se sempre. Neste momento, há países do mundo que se especializaram nesta área”. Diz o cirurgião ao Expresso das Ilhas.

Na Europa, na América Latina, na Ásia e em África há nações a oferecer serviços diversos, a preços mais baixos do que os praticados nos países mais avançados, mas com o mesmo padrão de qualidade. No México, por exemplo, pratica-se cirurgia dentária e estética por valores entre 25 a 35 por cento do que se pagaria nos Estados Unidos da América. Na Costa Rica acontece o mesmo ou no Brasil onde a cirurgia estética custa menos de metade do que nos EUA. Singapura especializou-se no diagnóstico de cancros, a Tailândia e a Malásia oferecem terapias alternativas, como a Talassoterapia [tratamento pela água do Mar e elementos marinhos] e a África do Sul tem, na Cidade do Cabo, centros médicos especializados em fertilidade.

E Cabo Verde? Para começar, como refere o médico José Maria Martins, tem a localização privilegiada para receber pacientes da Europa e das Américas. Depois tem também o clima, tem praias e tem sol. Falta-lhe agora dar os passos necessários para conseguir entrar neste mercado de 100 biliões de dólares. Conseguir uma fatia de 0,1 por cento, como refere o médico, “já seria extraordinário”.

“Vou dar-lhe um exemplo”, diz José Maria Martins ao Expresso das Ilhas, “os Estados Unidos da América pagaram 16 biliões de dólares para que pessoas fossem operadas fora, principalmente na Índia, cirurgias cardíacas. E as companhias de seguros preferem assim, nos EUA pagariam 150 mil dólares por intervenção, na Índia pagam 15 mil. Claro que a formação dos médicos indianos é altíssima e há centros com condições extraordinárias, acreditados internacionalmente”.

“A Índia também o conseguiu porque os seus melhores médicos, que viviam na América ou na Inglaterra, tiveram condições para regressar. Se vão para a Índia, de certeza que viriam a Cabo Verde. A Praia é a capital mais próxima a oriente de Washington. Um doente que vá fazer cirurgia na Índia, no voo de regresso tem um risco maior de tromboses, por causa do tempo de voo”.

É claro que para já não se pode pensar em voos tão altos para o arquipélago, que envolvam cirurgias complexas, o que não quer dizer que não haja outras áreas por onde se poderia começar. “Pode haver pessoas que venham perder peso, ou venham fazer um check-up, ou sequência de tratamentos, por exemplo, um atleta que é operado e precise de fisioterapia, nada como fazer fisioterapia num centro com bom tempo, com sol, etc. E há uma área que defendo que é a hemodialise”.

Pelas contas dos especialistas, 12 pacientes já sustentam uma unidade de hemodialise, um tratamento que até se pode fazer individualmente, inclusive em casa. “A Europa aumentou a esperança de vida em mais oito anos, as pessoas quando chegam aos 60 anos aumentam o risco de fazer hemodialise, portanto há pessoas que sabendo que há um centro referenciado no mundo, a 4 ou 5 horas de viagem, podem vir passar um mês, dois, ou mais de férias, no segundo ano até já pode adquirir uma segunda residência. Penso que a hemodialise poderia ser uma saída extraordinária”.

Antes de se poder avançar para qualquer projecto, e fazer parte da Patients Beyond Borders a revista que serve de guia para os serviços de saúde em todo o mundo, é necessária uma acreditação internacional. Há três organismos que a passam: a Joint Commission International (JCI), o Canadian Council of Health Service Acreditation e a United Kingdom Acreditation. Só para dar um exemplo, os países do Golfo Pérsico têm trinta e oito acreditações da JCI, 17 delas só na Arábia Saudita.

“Para conseguirmos a acreditação terá de haver uma diplomacia económica. O Estado quando sai, tem de levar ofertas concretas. O Estado tem de dinamizar, não tem de explorar, o Estado tem de promover o país e deixar depois trabalhar as entidades privadas. Oferecemos estas ilhas paradisíacas, temos o sol, as praias, o mar, e depois temos também estes serviços”.

“O passo fundamental é a acreditação”, reforça José Maria Martins, “e para isso é preciso saber o que se exige para o serviço. Temos de saber quais as barreiras que temos de vencer e temos de planear. Quanto tempo é necessário? 3 anos? Cinco? Dez? Precisamos de formar quantos médicos? O importante é começar, pensamento alto com os pés no chão e ver o que se exige para a acreditação”.

“A natureza já nos ajudou, agora somos nós a ter de fazer alguma coisa”, conclui o médico cabo-verdiano.